segunda-feira, 15 de agosto de 2011

(des)ilusões.

Ainda me sinto como um gurizinho quando vejo algo brilhante em meio à escuridão. Por mais racional que seja a minha criança interior, a curiosidade e a fantasia ainda me instigam mais do que qualquer razão ou medo. Naquela pressa disfarçada, as pernas –bambas- caminham sem nem pensar nos passos em falso que se pode dar até que lá se chegue. O que importa mesmo é alcançar o brilho antes que ele ou ofusque os olhos ou apague-se de repente sem que se tenha a chance de chegar mais perto... Nem que seja para descobrir que, no fim, tudo não passava de um inútil caco de vidro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O ciclo.

Junho anuncia seus primeiros dias com aquele típico ar gélido cumprimentando a face. Ah, essa neblina que ultrapassa o ar e invade os pensamentos, essa geada que devasta meu canteiro de ilusões. Não poderia eu conservá-las até a próxima estação?

“Eu tenho certo apego a essas sementes pobres que plantei mesmo sabendo que não chegarão a florescer”. O vento me reprime com um assovio.

“É verdade, eu tenho apego por que eu mesma as criei. Não importa que as estações as destruam... Há sempre novas estações e novas ilusões adiante.”

O mesmo vento que me afagou os cabelos, derrubou uma das poucas folhas que ainda agarravam-se aos galhos secos. E foi tão bonito ver aquela ilusãozinha desesperançosa planar livre pelo ar antes de (re)pousar no inóspito concreto.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Hoje fazia um dia tão lindo, meu deus, que consegui ver beleza até nas folhas mortas e secas no chão. E o que me importa se o vento ainda seja gélido, se o sol saiu para me dar bom dia?
Era primavera -em pleno outono-, mas floresci.

domingo, 24 de abril de 2011

Sintaxe.

Esperar pela magia das frases bem estruturadas, pelo encanto incômodo das entrelinhas que dizem o que não se deve, pelo mistério e a esperança – que pula de ponto em ponto- nas reticências bem colocadas. Deparar-se com a secura do fim da linha, do período: sentença?

Uma frase solta não se subordina, não se envolve, mas também não pode completar nenhuma outra. Ela por si só se basta, mas é reduzida a seu próprio sentido. Por mais que essa diga tudo o que queira dizer, uma frase só não conta uma história.

Como se contentar com pontos finais se a cabeça sempre monta sentenças mais complexas?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Relatividade.

O colchão cedia devido ao peso -aquele que carregava por sobre os ombros-, que se intensificava quanto mais a hora da partida aproximava-se. Eu me recompunha aos poucos, peça a peça, como se esperasse continuar o sonho interrompido. Acomodei cada botão da camisa em sua respectiva casa, apertei bem o cinto (precisava de segurança) e o nó da gravata, por fim, estrangulou-me com a realidade: o beijo da despedida.
Ainda fiquei a encarar a porta, já fechada, por mais alguns segundos antes de ceder a sua afronta -bem sabia que ela não iria. A minha felicidade era feita em doses precisas, semanais; havia de me conformar. O caminho de volta servia-me como um balde de água fria, retirava-me da entorpecência.
Eram sempre os meus pés os únicos a caminharem sem pressa pela Avenida Paulista. O esforço de competir com a multidão não compensava o prêmio de chegar a casa um pouco mais cedo. Em meio ao fluxo de pedestres, a minha imparcialidade de movimentos deixava-me vulnerável: era carregado. Aprendi a ser passivo, precisava.
Sorrisos amarelecidos, o encostar forçado dos lábios e o tilintar dos talheres à mesa resumiam o que havia se transformado a minha vida conjugal. As refeições e a cama eram as únicas coisas de que ainda compartilhávamos - já não se notava a sincronia nem mesmo no apagar dos abajures. No anel dourado, que lacerava meu anelar, apenas restara melancolia, valor comercial e uma data falhada. A mentira o corroera, eu sabia.
Em verdade, a culpa fora mesmo do meu excesso de sinceridade -comigo mesmo. E por mais que a mentire existisse, eu sabia que era inocente: ela (a outra) era o meu cruzar de dedos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Inconstância.

Não se sentir sozinha sempre a apavorou -ela queria a necessidade, a carência, o desespero em não ter outra pele humana para tocar. Estranhamente recebera o conforto no silêncio absoluto, a evasão como mania incontrolável, a sede por reclusão. Talvez estivesse acompanhada dessa falta há tanto tempo que esta fraqueza sua já lhe suprisse a solidão de estar, na realidade, acompanhada pelo nada. Estar acompanhada, por hora, já lhe era o bastante.

Um medo não pode ser tão forte a ponto de privá-la sempre de tudo -deve (tem que) existir algo mais forte que ele. Essa era a sua verdade, a que acreditava fielmente sem nunca questionar - nunca? Saramago invade, sabiamente afiado: “Não há verdades tão fortes que não possam ser postas em dúvida.”

O nada torna-se algo –maior que essa covardia-, algum dia?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gradação.

Os pés pesavam no assoalho, arrastavam-se de forma irritante, como se assim pudessem evitar que o silêncio absoluto se instalasse. Jantava ao som do diálogo dos talheres, do engolir seco da comida com gosto de todo dia. Tossia sem vontade ou deixava escapar um suspiro proposital, só para confirmar se ainda tinha alguma voz dentro de si. “Meu dia foi bom” afirmava mentalmente. Embora não parecesse, somente uma das cadeiras ao redor da mesa estava vazia. E era ele, o vazio, o centro das atenções.

A porta do quarto rangia toda vez que era aberta -gostava daquele ruído inoportuno. Lia, lia com sede de palavras que falassem por ele sem precisarem ser ditas; ousava rabiscar algumas frases perdidas e sem sentido quando não as encontrava perdidas pelas páginas alheias. Ouvia música; gostava de ter a alma exposta, mesmo que a dele não fosse. Em meio ao silêncio disfarçado, protegido em seu refúgio, ele adormecia.

Uma mão afagaria-lhe os cabelos, recolheria seus livros caídos ao chão, devolveria o silêncio ao ambiente, instalaria o escuro acolhedor. Nunca soube se em sonho ou não, mas um beijo sempre lhe era depositado na testa. Aquele era o amor que conhecia : nas entrelinhas, o subentendido.