terça-feira, 28 de setembro de 2010

Chuvisca teu mantra na vidraça, ritma teus pingos contra o concreto. Levanta do chão o orvalho, escorre do céu, borra as estrelas. Dissolve também aquela nuvem negra...

Já que a lua escondeu-se traga então até mim o cheiro dessa noite que só pude ver passar da minha janela.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sujeito Oculto.

A porta está entreaberta; cansei da escuridão e do ar antigo que ainda respirava. Renovar o ambiente, trocar as energias, nada mais. Não espero ninguém e já aviso que odeio visitas surpresas –odeio estar desprevenida.
Não sejas então desagradável, não empeste o ar com esse cheiro: meus suspiros sempre foram dos mais sutis. Não perturba minha quietude que o novo ainda assusta, incomoda. Não vê esse escuro acolhedor e o silêncio tranquilizante? Seja silencioso....
Se ficas ou sais, não alardes; camufla-te no breu. Chega suave, sem pressa, sussurando: se for para eu arrepiar, eu prefiro não saber o motivo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Confissão. (Mario Quintana)

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Olha nos meu olhos úmidos, seu covarde, essas lágrimas escorrem por tua culpa. Há ácido diluído nelas, arde ao cair. Desinfla esse teu peito e assiste à vermelhidão do meu olhar, ao desaparecer do meu sorriso; foste tu o responsável. Escuta a rispidez das minhas palavras vomitadas, elas são fruto da minha decepção. Derruba, mas tenha a decência de admirar a queda e ouvir a crueldade no estilhaçar da alma. Observa-me enfincar a pá e agrupar os cacos, e não desvies do monte. Acompanha as minhas costas distanciarem-se a passos cambaleantes. É mais fácil manter a consciência limpa quando se desvia o olhar, né? Porém não há coragem alguma nisso, é ser fraco.

Olha nos meus olhos úmidos, seu covarde! Veja essas lágrimas, elas desabam –como chuva ácida- por cima de tuas cartas. A corrosão é rápida; linha a linha, apaga cada declaração, cada promessa: questão de tempo até que teu último “eu te amo” torne-se ilegível.


E não me olhes, depois, nunca mais.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Auto-imunidade.

Suga-me, arranca minha alma porque ela já não me pertence. Pega aquilo que foi-me um dia intrínseco e expulsa de dentro de mim. Exorcisa minha mente, leva daqui todos os pensamentos que me dominam porque eles não são meus. Deixa-me apenas as lembranças, o pretério (imperfeito) e a carcaça vazia e cansada. Meu corpo não me reconhece, não codifica minhas substâncias, não me identifica -como se eu o fizesse. Tornei-me meu próprio antígeno: é uma batalha interior.
Dissolvo-me nas lágrimas e aos poucos me desfaço; caio ao chão -porém não sem antes traçar uma trajetória tortuosa. Estou desabando a conta-gotas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Avante.

E ao olhar para trás apenas conseguia ver as migalhas que eu mesma atirara ao chão, a cada passo dado. Enfileiradas –tão patéticas- indicavam com perfeição o caminho de volta ao meu ponto de partida. Deixei que os pássaros, pouco a pouco, apagassem aquelas coordenadas: retroceder já não estava mais em meus planos.

sábado, 6 de junho de 2009

Melancolia.

O vento sopra... Tão silencioso. Falta aquele farfalhar, o roça-roça das folhas - pra onde se fora todo aquele atrito? Assovia, em um bemol quase inaudível, a tristeza da última folha arrancada -à força. O ornamento sumiu, a casca secou.
Da seiva escorre vagarosa a saudação: seja bem-vindo, inverno.